O excesso de indicadores e a ilusão de controle
Em praticamente toda empresa do setor sucroenergético existe um volume enorme de relatórios, planilhas e dashboards. O problema raramente é falta de dados. O problema é foco.
Indicador demais não significa gestão melhor. Muitas vezes significa apenas complexidade maior.
Gestão madura começa quando o gestor entende quais variáveis realmente explicam o resultado econômico da safra.
No setor sucroenergético, essa lógica é ainda mais crítica, porque margem é função direta de três motores principais:
- Volume
- Produtividade
- Custo unitário
Sem compreender essa relação causal, qualquer análise vira apenas leitura histórica.
1️⃣ Volume: a variável que distorce tudo
O primeiro indicador que deve ser analisado é o nível real de atividade:
- Moagem realizada
- Produção acumulada vs planejada
- Capacidade utilizada (%)
O custo unitário é matematicamente sensível ao volume:
Custo Unitário = Custos Totais / Volume Produzido
Uma queda na moagem aumenta automaticamente o custo unitário, mesmo que a eficiência permaneça igual.
É comum interpretar aumento de custo como ineficiência quando, na verdade, trata-se de subutilização de capacidade.
Volume é a variável explicativa primária.
2️⃣ Custo Unitário: onde a eficiência aparece
Analisar apenas o custo total mensal é um erro clássico.
O que revela performance é:
- Custo por tonelada de cana
- Custo industrial por tonelada moída
- Custo agrícola por hectare e por tonelada
- Custo de transformação por unidade final
A análise técnica deve separar:
- Variação de preço (insumos)
- Variação de consumo (eficiência)
- Variação de volume
Sem essa decomposição, o gestor enxerga apenas o sintoma, não a causa.
3️⃣ Produtividade: o verdadeiro motor da margem
Produtividade é a relação entre output e input.
Exemplos relevantes no setor:
- Toneladas por hora
- Consumo específico de energia (kWh/t)
- ATR por tonelada
- Eficiência industrial
- Rendimento agrícola (t/ha)
A produtividade explica o comportamento do custo unitário.
Sem monitorar produtividade, a empresa observa o resultado final sem entender a origem.
4️⃣ Planejado vs Real: onde nasce o controle
Indicador sem comparação é apenas informação.
Controle gerencial exige análise de desvio:
Desvio = Real – Planejado
Mas mais importante que o valor do desvio é sua natureza:
- Estrutural ou pontual?
- Controlável ou externo?
- Recorrente ou eventual?
Normalizar desvios recorrentes é um dos maiores riscos estratégicos em agroindústrias.
5️⃣ A conexão com caixa
Mesmo operações eficientes podem gerar pressão financeira.
Indicadores fundamentais:
- Geração operacional de caixa
- Necessidade de capital de giro
- Conversão EBITDA em caixa
Crescimento de estoque ou aumento de contas a receber pode consumir liquidez, mesmo em cenário de margem positiva.
Operação e finanças precisam andar juntas.
Conclusão: Indicador não é relatório, é instrumento de decisão
Gestão madura no setor sucroenergético começa quando o gestor deixa de olhar apenas o resultado e passa a entender os motores que o produzem.
Volume explica custo.
Produtividade explica eficiência.
Custo unitário explica margem.
Caixa explica sustentabilidade.
Os indicadores certos não mostram apenas o que aconteceu.
Eles antecipam o que pode acontecer.
E no agro, antecipação é vantagem competitiva.
